quinta-feira, 11 de maio de 2017

A força do amor (mensagem)

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Só o amor é capaz de transformar a guerra em paz, a injustiça social em justiça plena.
Só o amor vence  as batalhas  mais difíceis, porque penetra no local de acesso restrito: coração humano. Há tantos corações bondosos, muitos  fazem a diferença a partir das pequeninas coisas, seja num cumprimento ao porteiro, zelador, um sorriso, pedido de desculpas. Pequenos gestos fazem uma revolução dentro da gente. E pessoas boas onde passam ficam as marcas, como aconteceu com Jean Valjean protagonista de “Os miseráveis”,  livro de Victor Hugo. Ele passou uma vida sofrendo injustiça social e ao mesmo tempo provando para si mesmo que tinha um coração amoroso.
A força do amor! O amor precisa realmente ser retroalimentado para ganhar força, fazer contínuo de ações do/ para o bem comum. E um primeiro exercício é aproveitar o hoje, o presente, as coisas presentes. Sabe por que muitas crianças lamentam a perda do cabelo de uma boneca? Porque  não foram ensinadas a valorizar o inteiro, os pés, mãos, olhos, braços, corpo, mente... Precisamos parar de olhar detalhes, admirar as partes, mas o conjunto por inteiro. Nossos valores são repassados.
Há poucos dias deparei-me com uma questão tipo: “ você gostaria de ser amada pelos outros com a mesma intensidade que você os ama?” Será que precisamos de um tempo para pensar se sou capaz de desejar ao próximo o que também poderia vir para mim? Como está a minha balança quando o objeto de medida é o amor?  Às vezes queremos um mundo para nós e as sobras para os outros.   Amor não é egoísta, é paciente, tudo acontece no momento certo.  Quantas vezes pensamos que não vale a pena esperar por uma mudança e seria bem mais fácil desistir?
Isso ocorre quando enxergamos a mudança apenas no outro, na vida, no trabalho, na ação do outro. Pense na mudança pessoal, não tente corrigir o mundo, sabe por quê?  Se sorriem dos seus sonhos, ótimo. Nossos sonhos precisam provocar riso, alegria, incredulidade e não choro. Os sonhos são maiores, sabia?   Mantenha os braços abertos para aqueles que valorizam o seu abraço e continue lutando pelos seus ideais, nunca pare de sonhar... Mesmo que há um peso enorme sobre suas costas, faz parte da caminhada.  Ame-se e voe! Da sua aldeia olhe o quanto aqueles obstáculos gigantes diminuíram, bastou manter uma distância deles que perderam de vista, e a vida segue o seu curso.
Precisamos de muito amor para dar continuidade aos sonhos. E o que vemos com frequência é uma geração que desistiu de sonhar, jogou a toalha muito cedo e por muito pouco. Dentro de nós poderá o amor ocupar tanto espaço para não sobrar nenhum cantinho para as mágoas, tristezas e decepções. Se o fardo você achar pesado, olhe para os lados, não tente trocar a sua cruz com a do vizinho, poderá  ter uma surpresa.  O amor vence todas as batalhas, pois a força do amor é capaz de quebrar até a balança da injustiça social.


                       
                                        Elisabeth Amorim

* não sei onde fica esta estátua, mas a recebi via whats app


sábado, 6 de maio de 2017

Eu te escolho, mãe!


Você teve a opção
Para seguir  ou interromper a gestação
Estou aqui, não estou?
Parceira da árdua jornada
Você me abraçou
Seu pequenino tesouro.
Com um carinho sem igual,
Dedicou-me a sua atenção.

                      Hoje eu te dou meu coração,
                      Com todo o meu ser
                       Meu prêmio é você;
                      Não  serei o filho pródigo
                      Que pede para seguir o próprio destino,
                       Mesmo consciente das quedas do caminho
                       Quando  sem saída, como um menino.
                       Retorna em busca de proteção.

Escolhas de um  seletivo processo,
Tu passaste no teste
Enxugaste as minhas lágrimas
         Crianças, adultas, salgadas como sal
          Fizeste comigo uma aliança
         Desde a tenra idade
          Abraçaste-me de verdade
         Tornando-me um réu confesso.                                                                                                                                      
                                  
                                    Eu te escolho, mãe!
                                    Quantas lutas vivenciamos!
                                    Em teu colo encontrei abrigo
                                   Acredite, sou teu amigo.
                                  Se chorei contigo,
                                  O meu melhor sorriso  foi para ti.
                                  Minha joia rara, minha vida.
                                  A mulher que escolhi.

                                                                          Elisabeth Amorim




       



sexta-feira, 5 de maio de 2017

Bullying, quebrando o silêncio!

                                     
Não podemos nos calar quando a nossa volta as violências acontecem. Naturalizar a violência passa ser algo tão terrível quanto a prática do bullying, porque geralmente quem sofre, fica à espera do socorro, nem sempre essa ajuda chega, porque é mais fácil fingir que a violência é algo ficcional. Bullying, até quando?
Após três meses de estudos, pesquisas, discussões, realização de oficinas,  análise de filmes, resolvemos  quebrar o silêncio, e fazer circular as nossas produções finais sobre o tema bullying. Sem nenhuma intenção de transformar o mundo, mas a nós mesmos, pois o nosso olhar se modifica quando refletimos sobre as próprias ações. Com certeza, fechamos essa página com mais maturidade e com um olhar mais humano.   Várias perguntas fomos obrigadas a responder ao nosso espelho: Será que pratico bullying? E quando eu me silencio diante da violência que vejo acontecer com outros também não estou concordando com a discriminação?
De uma forma bem lúdica os estudantes do Ensino Médio de uma escola pública no interior da Bahia, encenaram algumas situações “comuns” da prática do bullying.  Na escola, na rua, no trabalho, em casa, no laboratório, numa clínica entre outros locais, serviram de cenário para que eles mostrassem através de vídeos como o bullying nunca foi brincadeira e poderá trazer consequências drásticas.  Em qualquer lugar poderá ter alguém que se ache mais forte, competente ou mais capacitado e sinta-se tentado a intimidar o outro, considerado por ele(a) inferior, seja pela cor da pele, tipo de cabelo, roupa, situação econômica, comportamento, altura, peso...
E o que fazer quando descobrimos que o bullying faz parte da nossa rotina? Sabia que as gozações repetidas, as ofensas subliminares, os apelidos ofensivos, os tapas diários nas costas, a destruição do material do colega e mais uma série de ações intimidadoras evidenciando a  valentia é algo sério?  Porque inicialmente poderá ser agressões leves, mas com o tempo o grau vai se elevando e as  “brincadeiras” tornam-se mais violentas. O bullying é  um ato de violência contínua, onde alguém se intitule “valentão” e faz questão de mostrar a sua superioridade diante do outro.
Fazer circular os vídeos curtos e mostrar para outras pessoas que é possível sim, fazer a nossa parte, é uma contribuição para combater o bullying. É pouco, reconhecemos que sim, mas temos como aliados os estudantes, criadores de uma série de cartazes, textos literários e informativos e agora autores de  vídeos literários e informativos que abordam o tema.  E daí? Estamos preocupados com a quantidade de jovens que estão se violentando, mutilando e o alto número de suicídios, isso é  grave.
Se você sentir tentando a ajudar uma geração de jovens que agridem uns aos outros gratuitamente, para que através de vídeos sobre o bullying esses jovens possam  enxergar a si mesmos e  reflitam as próprias ações, basta compartilhar essa página, porque com a nossa experiência podemos ensinar algo a alguém enquanto há tempo.

Alguns títulos sobre bullying no canal toque poético:

1-      Quero a minha mãe!
2-      Bullyying, não!
3-      Oficina de charges – tema: bullying, até quando?
4-      Hora marcada
5-      O destino final
6-      Chega de bullying!
7-      Você sabe o que é bullying?
8-      Amigos ou inimigos?
9-      O aluno estranho ou escola cega?
10-   Todos contra o bullying!



segunda-feira, 1 de maio de 2017

Flores para mim(crônica)

*


          Constantemente sou questionada sobre o que eu ganho divulgando textos nos espaços virtuais sem nenhum patrocínio.  Como é difícil viver sem se preocupar com o capital numa sociedade capitalista. Tudo ou quase tudo precisa ter um valor monetário para circular. Eu ganho flores num país que vive em guerra contra o tráfico. Eu ganho flores num país que impera a corrupção. Eu ganho flores quando procuramos nossos jardins e não mais os encontramos...
       Mesmo num país capitalista, não vejo o dinheiro como fonte absoluta da felicidade.  É um bem necessário, sim, mas não determinante para se conquistar o prazer. O prazer é conquistado dia-a-dia, nas pequeninas coisas, num almoço em família, na companhia de amigos,  no cumprimento de etapas fácies ou difíceis...  Seria hipocrisia dizer que não gostaria de ser remunerada nessa ação prazerosa que faço, mas tudo na vida tem uma razão de ser, não sou. E daí? Isso não me diminui nem aumenta a minha vontade de escrever, escrevo porque vivo, está no meu pulsar, o leitor é como uma flor especial,  almejada, preciosa e indispensável.
Tinha um amigo que passou boa parte da vida acumulando dinheiro, aos 64 anos por questões financeiras havia separado da família, apesar de ter uma boa quantidade de dinheiro, vivia solitário e contando os cartões de crédito,  pois não passava pela cabeça a mais remota hipótese em dividir algo com ninguém.  Esse amigo buscava nos mercados os produtos já vencendo o prazo de validade, alguns deteriorando,  para ganhar desconto. Fato que despertou a minha atenção e não me calei, ao vê-lo com uma pizza na mão.
            E na época  disse algo que ele não gostou,  mas falei que jamais queria ter dinheiro a ponto de tornar-me miserável, insensível ou avarenta.  Pois via um produto com aparência ruim que seria consumido por conta de algumas moedas a menos. No ano passado soube que ele havia morrido, fiquei a imaginar o desespero dele  ter que desapegar aos bens materiais ou até mesmo ao saber o preço pago pelo caixão, sem poder se levantar para comprar um de madeira inferior ou na promoção... Valeu a pena ser avarento?
            Não seja extravagante, não desperdice alimento, mesmo porque há tantas pessoas que precisam de tão pouco para serem felizes. As suas sobras poderão saciar a fome de alguém. Por outro lado, se tiver vontade de comer algo,  coma. Se desejar levar a família a um restaurante, lanchonete, parque, leve-a.  De vez em quando, permita-se viver fora da rotina, doe um tempo a você mesmo. Invista em você, porque  são momentos de risos que são lembrados com carinho pelas pessoas que realmente gostam de você.  
                Eu escrevo e sinto um prazer enorme quando termino um livro. Olho-o como se fosse um bebê, lindo e dependente de mim, e não hesito em tornar possível viver e durar mais um pouco. Há quem diga que sou louca por pagar caro pela edição num país que não há incentivo para o pequeno escritor. Talvez, eles tenham razão, mas nessa loucura fico satisfeita quando olho para o meu lindo jardim sendo apreciado por outros, isso não há preço, porque leitores são flores para mim.
                                 
 Elisabeth Amorim


*Vladimir Valegov, Mulher com flores  









sábado, 29 de abril de 2017

Alê manha (homenagem)


Conheci Alê
Manha.
Jinga.
Beleza.
Riqueza.
Conheci  a rica Alê.
Que manha!
Que jinga!
Que beleza!
Quando conheci  a rica Alê na manha...
Encantei-me com a sua jinga de seleção campeã do mundo.
Encantei-me com a sua beleza arquitetônica...
 Oh, linda Alemanha!

                                                                          E. Amorim

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Cenários nordestinos(crônica)

                           
                   
Ao chegar à Bahia o carioca de Cantagalo, o jornalista e escritor  Euclides da Cunha(1866-1909) para cobrir a Guerra de Canudos  enxergou sertanejo pobre, caipira, miserável, inculto e descreve-o  como “Hércules-quasímodo”, uma mistura de força e feiura numa só pessoa. Quem eram os fanáticos que seguiram cegamente o beato chamado Antônio Conselheiro? Não sou de Canudos, nem presenciei o massacre da guerra, mas tenho que carregar essa marca literária da rebeldia baiana que jogaram sobre as costas... Todo baiano é sertanejo?  Todo baiano é desengonçado? Todo baiano é rebelde? Todo baiano é preguiçoso?  O cenário baiano pode não ser o melhor, mas confesse, ser baiano é outro nível.
Ainda bem que nunca me perguntaram se recebi algum conselho do grande beato para tornar-me escritora... os fogos proféticos anunciados já se cumpriram. Finalmente, posso seguir em paz o meu caminho. Acho que sou mais uma  sobrevivente da Guerra de Canudos. Nem se preocupe, leitor, não sigo pokmon,  baleia, lula, cobras nem lagartos... Sabe por quê?
 Gosto é de literatura, escrevo literatura, só não faço ganhar dinheiro com ela, mas isso faz parte da nossa cultura nordestina.  Jorge Amado por onde andava na região cacaueira via  brigas entre coronéis do cacau, emboscadas,  e meninos de ruas vivendo de pequenos furtos assim, das mãos poéticas os garotos foram transformados em “capitães da areia” na grande Salvador. Em suas andanças viu também mulheres faladas falando, impondo e se fazendo respeitar, mulheres da vida? Não, mulheres de vida vivida, sofrida e excluída, isso é bem diferente.  E nem me pergunte se conheci o “Pedro Bala” o líder dos capitães,  o “Professor”, um exímio contador de histórias para as crianças carentes, esse juro, queria conhecê-lo,  a “Gabriela”, uma retirante que chegou faminta à cidade de Ilhéus e transformou o costume da época,  “Tieta” e até a “Dona Flor”, mulheres emblemáticas com personalidades fortes,   também sinto informá-los, não tenho notícias.  Aliás, as personagens são paridos com muita dor, por sinal.  E isso não faz cesariana! A dor só não é maior quando tem quem as abracem.
Dona Rachel de Queiroz foi outra escritora que olhou para o nordeste e viu o quê? Uma seca miserável! A de 1915 que assolou o Ceará, onde gado e gente não tinham o que comer nem onde ficar. Uma seca que colocou o homem nunca condição subumana, disputando com os bichos o mesmo pedaço de carne podre.  Ei, como pode você me perguntar se eu conheci o Chico Bento com a sua família de retirantes? Poxa! O romance "O Quinze" traz esse cenário.  O Chico Bento não é o das histórias em quadrinhos de Maurício de Sousa, é o vaqueiro que ficou desempregado com a seca... Ah, deixe para lá. Já disse, ser baiano é outro nível, aqui tem muitos que leem além dos gibis.



Eta “Vidas secas”, meu Deus! Muito sol, muita dor, fome, sede, vaqueiros sem gados, crianças desumanizadas, mas acompanhados de um fiel animal de estimação, seguidores da Baleia! Desde a década de 30, no cenário nordestino já havia quem venerava Baleia. Dizer que essa baleia não passava de uma cadela magra e sarnenta, é apenas um detalhe.  Dessa vez veio de Alagoas esse olhar nordestino, Graciliano Ramos mostrou como o mundo é permeado de vidas secas. O mundo é cheio de patrões “espinhentos como mandacaru” e de “Fabianos” que recebem os espinhos no seu caminhar seco, sem vida, sem sonhos.
Você já parou para pensar como a literatura  ao centralizar o olhar para os problemas sociais de uma região, de certa forma contribui para os estereótipos? Muitos incorporam os personagens como se fossem reais ou padrões.  Recentemente, um aluno ouviu de um professor renomado: “Não gosto da literatura de Jorge Amado porque ele vulgarizou a cultura baiana escrevendo muitas imoralidades”.  Ele queria o meu parecer sobre essa fala, dai a necessidade dessa crônica. Logo eu, uma baiana qualquer que nunca consegui o  canudo de doutora? A minha escrita é marginal, sabia?
Bem, a primeira coisa a dizer é   “vulgarizar uma cultura” é o termo muito forte, mas vamos lá.  Disse ao aluno que toda opinião é pessoal, cada professor, seja  especialista,  mestre ou doutor na área,  tem a sua defesa  e muitas outras leituras para sustentá-la, cabendo ao ouvinte ou leitor abraçar ou não.  Apesar de conhecer os romances de Jorge Amado, minha leitura  é pessoal, frágil e apenas por prazer, não para detectar 'imoralidades', por isso penso diferente desse professor. Tudo é questão de olhar. O que você procura num texto literário? Mas  essa briga entre  a produção amadiana  e  intelectuais é antiga,  acredito que nunca terminará.  E como sugestão indiquei de dois romances, após as leituras  voltarmos a discutir e debater. Mas, a primeira vista, parece-me ser uma birra pessoal,  tipo “eu sou bom escritor, intelectual e não sou lido, enquanto o Jorge Amado que escreveu ‘imoralidades’ ganhou o mundo...”  o leitor conhece o final desse peleja.  Muito se parece com os olhares lançados para as produções de Paulo Coelho,  mesmo pertencendo a Academia Brasileira de Letras e sendo muito lido no mundo todo,  pessoas nos meios acadêmicos olhares enviesados “Não é literatura, mas manual de auto-ajuda de um bruxo!”  Tem a receita, Paulo?  Por favor, onde encontrarei a alma-gêmea que abraçará a literatura  marginal?


 Cada escritor tem o seu estilo, e Jorge Amado apresentou Ilhéus, Itabuna e toda a política dos coronéis para o mundo. A forma dele escrever é a sua marca. Se você me perguntar se eu falo palavrões ou escrevo, a resposta é não, mas como baiana, ouço constantemente.  Da mesma forma  Herberto Sales apresentou para o mundo o comércio desordenado de diamantes na Chapada Diamantina, através do romance “Cascalho”, voltando-se para as ações desumanas dos coronéis do garimpo. É o olhar de cada um para o seu lugar.  
Ah, tem também o baiano Antonio Torres que em “Essa terra” apresenta a cidade natal “Junco” e os sonhos e desilusões de sair do nordeste para melhorar de vida em São Paulo. As desventuras do protagonista “Nelo” que não consegue lidar com as perdas, decepções e sonhos desfeitos, por isso retorna a terra natal para cometer o suicídio. Uma terra que ama, chama, enlouquece e ao mesmo tempo enxota os filhos. É mais um cenário nordestino.
 Um cenário com uma cultura diversificada, rica, onde povos lutam,  escrevem, estudam  e  sonham sorrindo ou chorando, mas seguem vivendo a vida intensamente. É redundância? Não! É apenas o olhar desmontado nordestino! Onde tudo acontece com abundância, inclusive as violências contra a literatura marginal costumam ser redundantes também, mas vale lembrar que nessa guerra de canudos de quem é melhor na caneta, o Jorge Amado era advogado.


                                                        ELISABETH AMORIM



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domingo, 23 de abril de 2017

Mãos doloridas ( crônica)



          Os calos das minhas mãos não me incomodavam tanto quanto os olhares assustados. Olhares pesarosos, condoídos como se eu tivesse doze dedos. Meus dez dedos estavam no mesmo lugar, algumas elevações nas mãos faziam parte das conquistas diárias. Mãos de quem trabalhava de sol a sol, mãos de quem ajudou construir essa nação, mãos negras sim, e daí?
          De repente, tudo mudou? Para quem?   Não precisava mais sair da senzala para atender os sinhozinhos da Casa Grande, era aqui mesmo que a exploração acontecia. Limpava toda área, fazia o cafezinho, cuidava de manter os banheiros e   escritórios limpos. Essa não era a função de um serviço gerais? Mas fui aprovado para o administrativo! Cada dia a minha jornada de trabalho aumentava um pouquinho. Num dia,  fui  buscar o filho do patrão no colégio ao descobrirem que o "Negão" sabia dirigir,  outro dia a esposa do patrão precisava de alguém para limpar um telhado, em outro  era a piscina que precisava ser lavada,  meu nome era sempre o primeiro da lista. E minhas mãos não paravam diante dos constantes solicitações:
          -Negão, você poderia fazer isso para mim?
          - Negão, posso te pedir um favor?
          - Negão, sei que essa não é a sua função, mas você é tão forte...
          Falam que a escravidão acabou, mas se esquecem que a escravização continua no mesmo lugar. Quem tem mais explora quem tem menos ou nunca teve nada...Até a minha identidade estava perdendo, transformaram-me numa cor.   No dia em que  outro tão negão quando eu disse não, o seu emprego sumiu em plena luz do dia. Contenção de despesas. Realmente, lá precisava de alguém que desenvolvia múltiplas funções, caso isso não aconteça, teria  que ser demitido para  um outro negão mais qualificado assumir a vaga.
          Não sei como me resta tempo para essas reflexões, se meus patrões sonharem que  penso, logo deixarei de existir para eles.  Meu tempo será preenchido de tal modo que não sobrará  espaço para os pensamentos.  Já roubaram alguns sonhos, cassaram o meu diploma...  E querem me ver sorrindo...  Contava as horas para chegar a aposentadoria, agora nem sei se estarei vivo para tal desfrute. Enquanto caminho sem saber exatamente a direção que me colocará frente a felicidade, pego o papel e rabisco algumas rotas de fugas.  Descubro que a escrita me liberta, quebro todas as amarras. O caminho é árido para conquistar essa tal felicidade. Infelizmente, ela insiste em morar na margem oposta.
           
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                                                    Elisabeth Amorim



Literatura de mainha 6 - Afirmação de identidades

 Mais um vídeo para você prestigiar.  Textos básicos; O sapo - Rubem Alves O sapo que não virou príncipe - Elisabeth Amorim