domingo, 17 de maio de 2015

Encontro (soneto)


Como pode esquecer?
O nosso encontro, nosso lazer.
Último desencontro.
Negou-me esse prazer.

Sentei-me no mesmo banco
Fiquei contando as horas
Você displicente
Não veio para mim, e agora?

Preciso mais uma vez te ver.
Solidão aperta o peito
Preciso parar de sofrer.


Fico a olhar o nosso banco
Como se fosse a primeira vez
O tempo não pára, resta-me o pranto.

                                                              Elisabeth Amorim



quarta-feira, 13 de maio de 2015

A menina que tinha medo de palhaço ( infantil)

*

Era uma vez uma criança muito sorridente e inteligente. Na verdade ela tinha um QI acima da média das outras crianças de sua idade.  O nome dela era Maria, tinha 9 anos e gostava de dançar e cantarolar.  Onde  Maria chegava não havia mais tristeza, sempre brincalhona e  esperta.  Até que um dia a garotada de rua resolveu fazer um pequeno circo no quintal de uma das casas vizinhas e Maria  além de organizadora,  era a  principal  dançarina.
Era uma animação só, numa cidadezinha onde nada de novo acontecia. Finalmente a estreia estava marcada. Isso após as crianças pegarem às escondidas  muitos cobertores, lençóis  para servirem de  lona e as maquiagens das mães.
Nessa brincadeira sempre aparece um ou outro adulto para ajudar, com uma extensão para uma lâmpada debaixo do pé de tamarindo. Isso depois de mudar o horário da brincadeira infantil para o anoitecer, palpitar aqui e acolá, emprestar alguns bancos para os mais velhos, esteiras e essas coisas que as crianças sozinhas  não conseguiriam resolver, mesmo porque elas só queriam se divertir.  
Estreia, casa cheia. As crianças da rua de cima e da outra rua lá de trás  desembolsaram algumas moedinhas da merenda para assistirem ao espetáculo.  E Maria feliz com o sucesso anunciado,  maquiada  numa despensa que servia de camarim, vestida de bailarina, prontinha para entrar em cena. Até que  sua amiguinha, também bailarina, é chamada por algum adulto para realizar uma atividade qualquer, e de repente...
Escuridão total.
_Quem apagou a luz do camarim?!

Eis que entra sorrateiramente um palhaço, fecha a porta e vai se aproximando de Maria.  Ela de olhos arregalados percebe que aquele palhaço era muito alto,  forte, adulto e não se parecia com nenhum dos seus amiguinhos. Só poderia estar sonhando,  não era sonho, mas um pesadelo.
Maria consegue gritar desesperada  tenta arrancar-lhe a máscara.  Muitas crianças correm apavoradas com medo dos seus gritos histéricos. Confusão, correria, pavor e  a energia volta.
Mesmo assim, Maria continua gritando que nem percebe a entrada de seu colega de classe.
_Maria, sou eu! Calma, calma. Sou  eu, seu amigo Pedro. Isso aqui é uma máscara. Já tirei.
Maria olha Pedro, aquele garotinho franzino para os seus 10 anos, em prantos ela pergunta:
_ Tem quantos... quantos  palhaços tem aqui hoje?
E Pedro sorri  inocente e diz:
_ Só tem eu... e seu irmão, mas ele não chegou ainda.
E ela grita desesperada :
_ Tem outro! Tem outro!
 E foge despertando espanto e riso das crianças e adultos.

 Como a bailarina tinha medo de palhaço o circo foi desmontado.

                               
                                                E.Amorim


* imagem da web ( apenas ilustrativa)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Muralha da China (poesia)

                                          Para meus leitores chineses com carinho,


Ergueste um muro
Não quiseste mais meu carinho
Em outros braços encontraste
Tudo que negaste
Ao me deixar sozinho.


A ponte que construir
Sem nenhuma razão
Deixou de existir
Brincaste com meu coração
Que deixou de sorrir.


Para que esse muro?
Um dia irei escalar
Com certeza te encontrarei
Ansiosa para voltar.
Para os meus braços, meu amor.


Que faço com a solidão?
Jogo no poço ou me afogo nas lágrimas...
Quero alguém que me estenda a mão.
Darei um basta nesta indiferença
Xangai, por que não?



Não te esperarei na esquina
Arrumei a minha bagagem
E estou de partida para China
E nessa  linda viagem
Deletarei,  menina!


Encontrarei uma chinesa
Para meu coração transformar
Cansei de  sentir tristeza
Quero de novo comemorar
Essas lágrimas? São gotas de orvalhos... vão secar.


Feriste meu coração
Corri, cansei, Agora queres uma nova chance?
Se derrubares a Muralha da China
Verás que passei o cadeado
Sem adeus nem perdão.



 Elisabeth Amorim

sábado, 9 de maio de 2015

O convite ( infantil)

*

Esperança estava contente no seu mundo habitado por pessoas boas e simples como ela.  Porque no mundo dela só participa quem ela quer. Criança pobre,  11 anos,  negra, moradora de uma viela qualquer, com sonhos pequeninos, mas valiosos.  Boa aluna,  excelente filha e amiga mesmo que o mundo não tenha sido tão bonzinho com ela, porém Esperança  tinha algo que não perdia, pois nascera junto com o seu nome. E sempre que alguém tentava diminuí-la, ela bloqueava, não a pessoa, mas a ação.
Até que um dia ela recebeu um  convite  para comparecer à  festa de  aniversário de uma menina que conhecera há pouco tempo.  Não eram amigas,  pois a condição social erguia um muro,  no entanto do outro lado do muro há sempre alguém que espicha o pescoço e vê  uma Esperança atravessando a rua, às vezes ela fica na pista ou apenas no olhar de cada um. 
Sonha, comemora aos quatro ventos  o convite que havia ganhando. Na sua inocência não percebia que a sua reação poderia causar um mal estar no outro que não havia sido convidado. Nem se incomodou que o convite havia chegado tão em cima da hora., simplesmente deu a ele o seu toque poético. Arruma-se contente, mesmo com aquela roupa surrada domingueira, sentia-se bonita. Minto, Esperança é linda.  Não ouviu nenhuma das  advertências das pessoas que realmente gostavam dela. Enquanto ajeitava a roupa de chita ouvia as inquietações dos verdadeiros amigos:
- Esperança, não vá! Será que você será bem recebida naquele casarão? E a família  da sua amiga sabe dessa amizade? A intenção dela pode ser boa, mas como os outros vão reagir?
Esperança sorria, pois não via  o  porquê da preocupação. Ela fora lembrada e iria aproveitar para desfrutar daquele convite.
Chega ao local com o convite em punho,  apresenta-o  para um espantado porteiro e entra  sorridente como se fosse visível. Lá,  o mundo é feio, falso, estupidamente preconceituoso  e egoísta.  Sente-se incomodada.  Parecia que só percebiam os seus cabelos de pixaim e a sua pele escura, destoando totalmente do ambiente, como um fantasma que arranca a nossa máscara, encarando-nos olhos nos olhos,   estava Esperança.
_Por que me olham com desprezo? Eu fui convidada? 
 E de imediato, interrompendo seus pensamentos chega até ela  um pedido de desculpas do anfitrião, dizendo que o convite tinha sido um engano da aniversariante,  sua filha pegara um convite que havia rasurado e mandado de lembrança para  ela.  Para  o pai da sua nova amiga  foi apenas  um lamentável engano aquela menina diferente na sua casa,  mas para  Esperança  foi uma bela lição de vida, olha para o cenário à moda Branca de Neve, balança os ombros e ...diz:
_Convite do lixo!?   Aprendi com minha mãe a me amar como sou e as violências sofridas por conta da minha condição social e racial  nunca irão  diminuir  a minha esperança  em um mundo melhor.  Com licença.
Esperança caminha  lentamente  até a lixeira  dourada e deposita suavemente o convite, após picá-lo em mil pedaços.  Ajeita o indomável cabelo crespo e  através do Espelho Mágico percebe os olhares da centena de anões acompanhando a sua saída.
_ Minha mãe tem razão.  A minha história é  mais bonita do que a de Branca de Neve.

                                                                 Elisabeth Amorim

* CÂNDIDO PORTINARI, Mulher chorando. ( disponível na web)


quinta-feira, 30 de abril de 2015

E sorriu para mim (poesia)


As horas passam lentamente
Fico a te esperar, meu amor.
Quero-te pertinho de mim
Com teu sorriso encantador.

Chega de tantas provas
Sem nenhum fio conectado
Apenas mensagens de amor
Para quem esteve do teu lado.


Drible essa danada mais uma vez!
Amor, acorde para mim.
Venha, o sol nasceu tão lindo!
Há tantas vidas no nosso jardim.

Meu amor me escutou
Minhas angústias chegaram ao fim,
Abriu os olhos lentamente,

E sorriu para mim.
          
                                               E. Amorim

Sentimentos ( poesia)



Machucaste meu coração
Numa insensatez sem igual
Insiste na razão
Amor é amor sem igual.


Como as águas mansas da fonte
Que banham meu corpo agora
Precisamos reforçar essa ponte
Caso contrário, o amor vai embora.


Sentimentos compartilhados
Razão e emoção
Presos, como rivais acorrentados
Quem perde é o coração.


Amor é doação
É também doador
Sem essa tal emoção
Restam  marcas do desamor.

E. Amorim

                                                     





quarta-feira, 29 de abril de 2015

Vejo-te assim (poesia)






Admiro sem cessar
As águas  calmas de um rio
O brilho das estrelas
Sorrindo para mim
Vejo-te assim.


Voltando para casa
Como um ser iluminado
Como um guerreiro cansado
Querendo colo sem fim
Vejo-te assim.


Chamando-me de amada
Doando-se por inteiro
Esse amor verdadeiro
Entregando-se só para mim.
Vejo-te assim.


Mesmo com temporais
Não desanimaste
Minhas lágrimas secaste
Vejo-te assim
Semeando flores no jardim.

Literatura de mainha 6 - Afirmação de identidades

 Mais um vídeo para você prestigiar.  Textos básicos; O sapo - Rubem Alves O sapo que não virou príncipe - Elisabeth Amorim