domingo, 23 de novembro de 2014

VIVA O POVO BRASILEIRO ( resenha)



RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. Coleção Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa. Rio de Janeiro e São Paulo: Editora Record, 1984.                                                  
                                         


A ficção de Ubaldo Ribeiro é um registro de uma sátira da história brasileira,  desde o  “viva” que aparece no título que poderá seguir caminhos distintos, homenagear o povo com os aplausos, honrarias  ou simplesmente fazer com que esse povo resista diante dos heróis forjados onde o local de liberdade  é representado em espaços atípicos, como  um terreiro de candomblé, senzalas abandonadas e até nas  malocas do Caboclo Capiroba. 
A história  e a anti-historia  se entrelaçam nos séculos e séculos que aparecem na narrativa, na qual os  "heróis"  se mesclam com os "anti-herois" , tornando-os unos para conquista de benefícios.  Quais as identidades que prevalecem na construção e busca da nacionalidade? Quem ouve o discurso das margens? Em “Viva o povo brasileiro” são nas  vozes “inaudíveis” de ex-escravo  mutilado, de  caboclo,  índios que a história do Brasil é  passada a limpo.
O livro de João Ubaldo Ribeiro, baiano da Ilha de Itaparica, traz forte posicionamento político, uma vez que o autor se utiliza dos personagens para mostrar  como a historia da nossa gente é mitológica em nome de uma construção de identidade nacional.  Assim, o romance  inicia com o processo de desconstrução de mitos, tendo como cenário a luta pela independência,  na qual o herói  Perilo Ambrósio é totalmente cassado pelo narrador  e pelo escravo que ele o mutilou para forjar um ato heroico.
Perilo Ambrósio, um português rico, utiliza-se da guerra para levar vantagem e tornar-se o herói nacional, finge estar do lado dos brasileiros, com intuito de se apropriar das riquezas da própria família portuguesa. No entanto o seu heroísmo reside em  se esconder  das forças militares em momento de combate e  matar um  escravo, lambuzando-se do sangue inocente, mutilar outro para não contar a sua “ação de heroísmo” e assim,  forjar a identidade de guerreiro pela pátria e  tornar-se  o barão de Pirapuama. Como grande figura do romance, Perilo cria para si uma autossuficiência exacerbada e a utiliza das formas nefastas, seja para estuprar alguém , assassinar ou para masturbar-se para impor a sua vontade.
O grande espaço do romance é justamente a Ilha de Itaparica, onde ocorre a modelação  da identidade nacional. Talvez, sem intenção de reconto o romance trabalha com quatro  séculos, XVII a  XX  sob o olhar dos excluídos, as guerras e conflitos vem à tona, através dos fatos históricos ocorridos nesse período, sendo que dessa vez,  negros e  índios, caboclo   os grandes oradores , contrapondo-se com a versão oficial. O tema central é justamente a construção de identidade que parte  da desconstrução de heroi nacional.
Em “ Viva o povo brasileiro” a grande heroína é Maria da Fé, fruto de uma violência sexual, ela forma um grupo de resistência a identidade legitimada ao povo brasileiro. Com a "Irmandade do Povo Brasileiro", o projeto de identidade desponta das classes populares, oprimidas e excluídas. O romance dialoga com a linguagem polifônica, sendo elite e povo,  a voz do povo por muito tempo anulada ganha uma outra dimensão na narrativa de Ubaldo Ribeiro.
É interessante lembrar que o romance de João Ubaldo é de fôlego. Não é uma história fácil de ser compreendida,  pois a linearidade sofre desarticulação,  sendo que o romance histórico do século XX está  contracenado com a história dos  séculos passados,  quando a morte de um adolescente pescador, alferes mártir,  precisa encontrar uma outra alma para continuar  existir e resistir. E século adiante, encontra-se no Caboclo Capiroba “terreno” propício de resistência a versão cultural imposta no país.   Por não “servir” para a sociedade,  o Caboclo  Capiroba cria em sua maloca ( apicum) um local de resistência. A negação a imposição linguística, cultural e física torna-se Capiroba  um “morto vivo” por não adequar ao modelo identitário do país, e o “canibal” esquisito  é  visto como objeto de repulsa, escárnio e exclusão social.
Assim como Capiroba, à  medida que os personagens vão desconhecendo os intitulados heróis,  os espaços de resistências  políticas se multiplicam, sejam nas senzalas abandonadas, casa de farinha, acampamentos, terreiro de candomblé. Não resta dúvida que o texto de Ubaldo Ribeiro funciona como espécie de denúncia a história escrita que “apaga” a história oral, no qual o colonizador por ter um domínio com as letras e culturas forja o heroísmo nacional às custas de muitas mortes e mutilações.  O guardião da história é justamente um cego que através da tradição oral  vai passando de uma geração para outra o que acontecia nos bastidores de uma guerra...até chegar ao terreiro de Rita Popó.
O baiano Ubaldo Ribeiro consegue fazer do seu romance  em quase 700 páginas uma grande paródia sobre as questões identitárias brasileiras desde a morte de um inocente “ Brandão Galvão”  a outras mortes em nome da pátria livre, “mãe gentil”.
A memória e a história caminham na mesma direção  e esta resenha atribuo créditos ao brilhante  ensaio “Memória, historia e ficção” da pesquisadora Rita Olivieri- Godet, no qual ela “disseca” o romance desse nosso baiano e que muito me ajudou nas leituras feitas sobre a produção de Ubaldo Ribeiro.
 Em “Viva o povo brasileiro” mostra uma luta vindo de baixo,  das camadas pobres, uma luta na qual os guardiães da história encontram abrigo em  local restrito, particularizado, mas de perseguição, resistência  e permeados de poder. Uma história na qual as testemunhas foram violentadas e impedidas de falar, mas através de gestos, sons estranhos, as “verdadeiras narrativas” sobre fatos históricos são capturados e traduzidos. Como um grande quebra-cabeça as peças vão sendo colocadas em seus respectivos lugares e desnudando para o leitor como os representantes da elite se distorceram para permanecerem em seus locais de conforto.
Enfim, o livro de Ubaldo Ribeiro é uma excelente opção de leitura labiríntica, pois o tempo inteiro mexe com os conhecimentos prévios do leitor, não há linearidade das ações dos personagens  com isso faz com que  leitor e personagens se encontrem e se percam nos conflitos  de guerrilhas sejam através de : Canudos, Paraguai, Farrapos, Independência, Abolição, República...  Entre as idas e vindas das alminhas dos personagens, ( e por que não, dos leitores?) Patrício Macário um militar de carreira, sente-se angustiado com própria atuação nas guerras, chegando ao final do romance, Macário torna-se integrante da cultura popular, através da sua inserção no terreiro de Rita Popó. Mas é em Maria da Fé que  a representação da nacionalidade é fortalecida, deixando de lado a identidade propagada pelo Estado-nação e  assimilada pelo povo, mas na  “Irmandade do Povo Brasileiro” o grito dos excluídos torna-se audível.
Acredito que a “Maria” que aparece no romance tem dupla carga, por ser mulher e trazer toda uma simbologia de resistência que já vem de outras épocas, as “marias” sofredoras, Maria, mãe de Jesus, a Santa Maria...  todas capazes de romper com  as correntes a elas destinadas, vencendo as lutas. Por outro lado ao ser acrescentado  o  “da Fé” há um reforço em  seu nome,  no livro de João Ubaldo Ribeiro, nosso baiano de Itaparica, a Maria heroína,  guerreira leva em sua bagagem a “fé” em dias melhores.
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                                            Bahia, junho/2014

                                                                                   Elisabeth Amorim

*imagem da web.

O Sobradinho dos Pardais ( resenha)



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SALES, Herberto. O Sobradinho dos Pardais. ed 31, São Paulo: Melhoramentos, 1994.


     Herberto Sales (1917 – 1999) baiano da cidade de Andaraí, Chapada Diamantina, estreou na literatura aos 27 anos de idade, com o livro Cascalho, que o despontou para o mundo. Jornalista, contista, romancista e memorialista é autor de várias obras  premiadas. Pertenceu a Academia Brasileira de Letras e traz uma escrita acadêmica muito forte e notável.
Entre os vários títulos para o público adulto como Além dos Marimbus,  A prostituta, Rebanho de  ódio, Cascalho, A telha que falta entre outros,  o autor também se  destacou na literatura infantil como A feiticeira de Salina, O casamento da raposa com a galinha, O homenzinho dos patos, O burrinho que queria ser gente... No entanto é em O Sobradinho dos Pardais que esse escritor baiano brinda à vida com essa brilhante história infantil.
     O que uma história infantil tem de especial? Ela como todos os livros desse baiano tiveram dezenas de publicações e traduções em vários idiomas, só esta editora paulista( dessa edição analisada) fez aproximadamente umas dez edições desse livro. Isso já nos revela a grandiosidade dessa história contada por um baiano, mundialmente conhecido e praticamente um estranho em seu espaço.
     Espero está a altura para descrever o conteúdo desse livro que traz uma simples história de um casal de pardais, protagonistas da narrativa.  Dona Pardoca e Sr. Pardal. Esse casal sempre viveu na mata, livre, feliz. Os pardais tinham como afilhado o filhote de Dona Joaninha-de-barro. Mas, não estavam preparados para a chegada dos próprios filhotes. Ao aproximar o inverno Dona Joaninha ao ver sua comadre na chuva e ela bem confortavelmente acomodada em sua casa, aconselha a procurar uma moradia fixa. Preferencialmente em um beiral de alguma casa.
     Surpresa, o mundo que Dona Pardoca conhecia era a mata, nem sabia o que era beiral, muito menos o que era uma casa.  Quando Sr. Pardal chega, ela logo se entusiasma para falar sobre deixar a mata. Ela queria conhecer beirais. Ela queria conhecer o mundo. Sr. Pardal cauteloso, explica para sua esposa os perigos que existiam fora da mata. Como a cidade reservava várias armadilhas. Porque a cidade era dos homens.
     Não adiantaram os avisos, Dona Pardoca insistia que saindo da mata, seria mais fácil criar os futuros filhotes. E o frio poderia prejudicá-los sem um abrigo adequado. E acaba convencendo o Sr. Pardal que rapidamente decidem partir logo cedo para a cidade dos homens, antes que as chuvas ficassem mais intensas. O que levam? Apenas uma palhinha da mata, para servir de primeira iniciativa para o ninho que iriam fazer bem distante.  Com isso, Dona Pardoca vai correndo se despedir de Dona Joaninha  dizendo que jamais voltaria para aquela mata, onde nem casa ela tinha. Ouviu a advertência da comadre que desejava bastante sucesso, mas nunca se deve cuspir no prato que se come.
     Partiram e ao chegar num sítio encontra um sobradinho desabitado.  E lá fizeram o ninho, tiveram dois filhotes. E a alegria é imensa. O beiral tinha várias janelas, e de lá a família de pardais desfrutam de uma felicidade enorme. A preocupação do Sr. Pardal é que algum homem apareça naquele sobradinho e estrague a felicidade.
     Um dia, Sr. Pardal estava no sítio, pois já estava  observando a área para caso, surgissem moradores, já pensar em outro lugar. E não percebe que em seu sobradinho alguns homens entraram. Já Dona Pardoca, ao ouvi o barulho fica admirada com aqueles dois seres diferentes em sua residência. E para dá as boas vindas, canta  bem bonito. Coisa que irritou um dos homens, ao olhar para cima e vê-la voando baixo entoando uma linda canção. E de imediato, um dos homens deixa a ordem para tapar todos os buracos do forro, pois não queria saber de pardais  na sua casa.
     Dona Pardoca como não entendia a língua dos homens, achou que agradou os novos visitantes. E foi tranquilamente descansar  com os seus filhotes, enquanto o Sr. Pardal estava ausente. E para sua surpresa, recebe uma barrofada de massa de cimento que só teve tempo de correr por instinto materno para proteger seus filhos.  Fica desesperada por conta dos pequeninos, pois choravam, sem condições de voo. Ela ao carregá-los para tentar escapar pela outra janela, nova massa... Escuridão total.  Pensou na liberdade da mata.
Ao retornar alegre com a descoberta de um novo beiral,  Sr. Pardal não encontra uma janela do seu sobradinho aberta, todas foram lacradas com aquela massa. Ele arranhava, piava, chorava desesperado... Sem nada poder fazer. A  cidade era dos homens. O seu lamento não iria salvar vidas. E foi no desespero ele se conscientizou. E passa a comunicar com sua amada, pedindo calma. Enquanto ela dizia: "não temos solução, fecharam as nossas janelas!"  Sr. Pardal passa a olhar para todos os lados, de repente se lembra de uma velha goteira, por conta de uma telha quebrada. E desesperado ele se direciona para lá, apreensivo, torce para que os homens não tenham percebido a brecha na telha. Para seu alívio, estava no mesmo lugar. E com sacrifício ele passa a chamar a sua amada para aquela pequena abertura, e guiada pelo som da sua voz ela com os filhotes seguem. E assim, daquela pequena abertura Sr. Pardal salva toda a família, juntos retornam para a mata.
     Vejo esse texto como um hino à vida, à persistência, um brinde ao amor.  O pardalzinho consegue ensinar a ter força diante dos obstáculos. Por mais que eu tente transmitir o sentimento que exala de um texto como esse, não tenho essa competência. Quantos de nós desistimos quando encontramos as portas travadas?  Quantos de nós jogamos a toalha nas primeiras críticas?  Quantos de nós já fomos ridicularizados pelo sistema nesse jogo de vale tudo para se aparecer ou derrubar o próximo?  E o que fazemos? Como esse pardalzinho direta ou indiretamente nós construímos outra morada. Buscamos novos abrigos. Às vezes das brechas, das margens, da lama... E assim como Sr.  Pardal e Dona Pardoca nós também brindamos a vida. Às vezes as conquistas são minúsculas para os gigantes, mas para nós, escritores e escritoras aprendizes, meros pardaizinhos no mundo dos homens,  cada leitor conquistado é uma vitória comemorada.

                     Obrigada pela leitura e excelente final de semana!

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                                    Bahia/2013
 
                                                                                                 Elisabeth Amorim

* imagem da web.

sábado, 22 de novembro de 2014

Essa terra ( resenha)


TORRES, Antonio. ESSA TERRA. Rio de Janeiro: Record, 2001.
 
 
 
     Antonio Torres, romancista  baiano, nasceu em 1940, tem uma vasta obra literária traduzida em diferentes países: Argentina, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos e  Israel. Morou em Portugal por três anos, atualmente vive no Rio de Janeiro. Obras como  O cachorro e o lobo e Essa terra foram bem recebidas pela crítica. E é justamente o romance Essa terra, com o posfácio de Vânia Pinheiro Chaves que irei apresentar de forma  singular as primeiras impressões do livro desse grande escritor que eleva para o topo a literatura da Bahia.
     Essa terra, romance de ANTONIO TORRES  retrata o drama de uma família moradora do sertão baiano, na pacata e atrasada Junco, atual cidade de Sátiro Dias que vê o primogênito Nelo, filho do Sr. Antão, mais conhecido na cidade com Sr. Totonho,   migrar para São Paulo.  Nele  todas as esperanças de dias melhores são depositadas. A trajetória de Nelo e demais parentes é marcada pelos desacertos narrados pelo irmão mais novo, Totonhim, o personagem-narrador do romance.
     O que a cidade grande oferece a Nelo e a muitos nordestinos despreparados para enfrentarem as exigências do mercado de trabalho? Como se deu o abraço do progresso paulistando com o nordestino de Junco?  Será que o sonho da cidade grande não poderá se transformar em pesadelo? Vamos seguir a narrativa de Torres numa tentativa de responder as questões.
     O livro ESSA TERRA é dividido em quatro partes. E em todas elas conseguem prender a atenção do leitor do início ao final, pois é dificil não se solidarizar com a dor de Nelo e da sua mãe que não conseguem lidar com as perdas, decepções, revoltas ao vê todos os sonhos depositados no filho mais velho, morador da cidade grande indo por terra, sem nenhuma chance de reacendê-los.
     O romance traz como marca o processo migratório, marcado pela total desterritorialização do ser com todas as problemáticas e crises identitárias. Assim, chama a atenção a partir dos títulos de abertura dos quatro capítulos: “Essa terra me chama”, “ Essa terra me enxota”, “ Essa terra me enlouquece” e  “ Essa terra me ama”  como em círculo, a mesma terra que chama é a mesma que expulsa aos seus filhos por conta da falta de emprego e perspectivas de mudança.  Os “expulsos” da terra tem consciência que um dia retornarão, pois a afinidade com o local não desaparece.



       Nelo migra para São Paulo e por lá passa boa parte da vida.  Se no início havia condições de enviar algum dinheiro para mãe, com o tempo as necessidades aumentaram e o que Nelo ganha não dá nem para a própria sobrevivência. Constitui família, mas vê a mulher fugir com seus filhos em busca de outras oportunidades de dias melhores.         Desterritorializado, Nelo  percebe que nada construiu durante os vinte anos na cidade grande. Os sonhos tornaram-se utópicos e os pesadelos aparecem, ele passa por todas as humilhações possíveis na cidade de São Paulo. E quando se vê no fundo do poço, doente, fragilizado, revoltado, agredido, humilhado, resolve voltar para Junco, a terra natal que acreditava que o Nelo era o filho rico do Sr. Totonho.
     No entanto, Nelo retorna mais pobre que todos daquele local, e diante de tantas expectativas que fora criado em torno de filho primogênito, ele não consegue encarar os pais e comete o suicídio por meio do enforcamento na sala principal da casa dos pais.  O irmão mais novo, Totonhim, coube  a incumbência de informar aos pais e arcar com todas as despesas feitas durante as quatro semanas que passara na terrinha.
        A morte de Nelo  impacta  a cidade de Junco juntamente com a mãe do rapaz,  diante dessa dura notícia enlouquece, e mais uma tarefa  árdua é deixada para o Totonhim: ser o responsável para cuidar de toda a papelada para o internamento. Assim, o personagem-narrador faz, apesar da quantidade de irmãos espalhados, a mãe só percebia Nelo como único capaz de salvá-los daquele ambiente de miséria. E ao cumprir  as obrigações com o funeral do irmão e internamento da mãe, Totonhim resolve ir também para São Paulo.
       O livro de Antonio Torres retrata com grande propriedade o processo migratório dos sertanejos para São Paulo e toda a violência  que muitos sofrem na cidade grande, indo além das agressões físicas, mas morais e psicológicas. Nelo é mais um “condenando que vai para o inferno” conforme gritava o doido “Alcino” ao anunciar o suicídio do rapaz. Talvez, pela pouca memória, não sabia que inferno, Nelo já estava vivendo há muito tempo.  Desempregado, sem contato com os filhos e esposa, sem  dinheiro reservado, vê-se obrigado a retornar para o interior baiano, para uma cidade em decadência que ele havia deixado para traz há vinte anos.
        O escritor baiano consegue mostrar que por mais que a terra enxota e enlouquece, ela consegue despertar o amor. E quando todos abandonam é para a terra que o filho volta. E isso, no final do romance o personagem-narrador, o Totonhim que jamais havia sido notado pela mãe, pois para ela era sempre o Nelo que ocupara toda a vida., resolve seguir o percurso do irmão, pede demissão do emprego da prefeitura e anuncia a sua viagem marcada para São Paulo, talvez, ele busca na fuga uma forma de ser notado e amado também.



 
            Junco  como muitas outras cidades nordestinas não consegue manter os “pássaros” sob as próprias “asas”. E a busca da liberdade sem a qualificação profissional, muito bem exigida no mercado de trabalho, muitos “voos” são rasteiros, não conseguem se distanciar do solo, ganhar altura e confiança.  E o texto de Torres com grande propriedade mostra uma São Paulo distante, fria, insensível, contraditoriamente desejada, sonho de consumo de moradores nordestinos que a  construíram em seus imaginários como um grande berço da civilização e consequentemente riqueza. E o ir para aquele “paraíso” representava para o lugar, melhorar de vida, compartilhar daquela riqueza.
         Enfim, Antonio Torres tira toda a maquiagem do “Eldorado” e mostra crua e competentemente a saga de uma família de sertanejo quando perde duplamente o filho Nelo, primeiro, para São Paulo e após tanto tempo de expectativas de retorno, perde para a própria Junco, atual cidade Sátiro Dias, deixando-a  sem ter em quem depositar os sonhos de progresso e melhora. Ao mesmo tempo, o romance mostra de maneira circular que a vida prossegue, outros sonhos nascem. Talvez, com os mesmos destinos fadados ao fracasso como os antigos, mas a terra de origem impulsiona fantasiar, querer algo melhor, mesmo sendo uma terra infértil, árida, enlouquecedora e castradora de sonhos, mas em “Essa terra” os sonhos continuarão existindo.
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                                                          Elisabeth Amorim/2013

    * Todas as fotos são resultados de oficinas literárias utilizando o método de desmonte, com estudantes de Ensino Médio, escola pública.

OUTRO PAI CONTRA MÃE ( resenha)




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FONSECA, Aleilton. Outro pai contra mãe. In: FERNANDES, Rinaldo de. (org.) Capitu mandou flores: contos de Machado de Assis nos cem anos de sua morte. São Paulo: Geração Editorial, 2008. p 215-225.




     Aleilton Santana da Fonseca, nasceu em Itamirim, hoje Firmino Alves, na Bahia em 1959,  é ficcionista, ensaísta e poeta. Pertence a Academia de Letras da Bahia, casado, pai de dois filhos, é professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) no estado da Bahia. É autor de diversas obras, já publicou cerca de onze livros. Algumas de suas obras são : Jaú dos bois, O desterro dos mortos,  O canto de Alvorada, Nhô-Guimarães... É doutor em Letras pela USP e brinda a literatura baiana /brasileira com esse belíssimo conto “Outro pai contra mãe” um reconto do conto machadiano “Pai contra mãe”.
     Antes de apresentar o “outro pai” criado pelo escritor baiano, convido o leitor a percorrer rapidamente o tempo histórico para relembrar que o “pai” criado pelo Machado de Assis (1839-1908) trata-se de uma história da época da escravidão. Sendo que o protagonista o Cândido Neves, ou simplesmente “Candinho”, após passar por infinitas profissões, aceita ser perseguidor de escravos fugidos, uma espécie de capitão do mato. Casado com Clara, mora de favor na casa da tia da esposa, é constantemente pressionado a colocar o filho do casal na Roda dos Enjeitados para que fosse resgatado por alguma família e assim ser criado com mais dignidade. No momento em que decide entregar a criança, vê a escrava fugida, a Arminda e de repente deixa o filho numa farmácia e a persegue, capturando-a para devolvê-la ao dono que havia prometido uma recompensa generosa. No entanto, a escrava implora a liberdade pois estava grávida e com certeza seria punida pela fuga. Fato ignorado pelo Candinho que sai arrastando a escrava até a casa grande, recebe o dinheiro e ainda presencia um aborto. Mas, fica tranquilo porque o seu filho não precisaria ir para a adoção.
          Agora, como o nosso professor  e escritor baiano faz esse reconto? Como o texto dele é atualizado? Afinal que profissão teria esse “outro pai contra a mãe”? A escravidão passou, mas a escravização não.  Vivemos em uma sociedade em que o ter prevalece sobre o ser, cada vez mais os dispositivos de poder vão engessando o ser humano, deixando inerte, paralisado, mudo diante das cenas que tocam, agridem, inquietam. Mas, nesse mundo entre o real e a ficcão, tem momentos em que lemos a ficção e ...Oh! como isso é real!
          Aleilton Fonseca ou professor Aleilton apresenta o conto de forma inédita, para compor essa coletânea em homenagem ao centenário de  Machado de Assis. E no seu reconto traz à tona a história de “Plácido Neves” o “Cidinho”, este casado com a “Cândida” e moram com a tia da jovem. Sua profissão era de ajudante de pedreiro. Com a chegada do filho as dívidas aumentaram consideravelmente, é aconselhado pela tia “Adélia”  levá-lo para adoção. No entanto, surge uma oportunidade de emprego maior, uma reforma de uma casa de uma família rica, e Cidinho não pensou duas vezes, aceitou a empreiteira assumindo a condição de pedreiro.
        Enquanto trabalhava na mansão, percebe que a empregada Elza mantinha um namoro com o filho dos patrões. Bastava os patões saírem que Elza e Júnior desfrutavam da liberdade. O serviço de Cidinho termina e ele retorna ao lar, com algum tempo recebe um chamado urgente do senhor que havia lhe contratado para a reforma. Logo imagina ser problemas com o serviço feito, afinal ele se passou por pedreiro, sendo que era um mero ajudante... Surpreende quando é convidado a assumir a paternidade da criança  que  Elza carregava no ventre. E diante dos patrões, Elza  desesperada dizia que o filho era de Júnior e não do pedreiro. Fato, que revoltou os patrões, gerando uma briga violenta com Júnior que sai de casa e promete voltar para buscar Elza, pois queria assumir o seu filho.
         Em particular os patrões de Elza tramam um aborto e oferece uma boa quantia ao Cidinho se ele a conduzisse e assumisse todas as responsabilidades, como o rapaz estava precisando de dinheiro para não se desfazer do próprio filho aceita a proposta. E com a desculpa de que iria levar Elza para o exame pré-natal e em seguida encontrar-se com Júnior, a moça é conduzida. No local indicado, toma um remédio e só quando começa as dores, a jovem percebe a cilada e sai desesperada.
         Por mais que Cidinho a procura, pois ela estava correndo risco de morte por não ter terminando o serviço, não a encontra. Os dias passam e ele, sem emprego, não tinha mais como ficar com o próprio filho. Mas, no caminho do orfanato, vê Elza abatida, febril, bem doente. E não pensa duas vezes. Entrega o filho para a farmacêutica tomar conta e agarra a jovem para devolvê-la aos patrões. E assim terminar o serviço.
      Na casa dos patrões, na presença de Júnior o pedreiro fala que o serviço não foi terminado pois ela havia fugido. Vale lembrar que os pais de Júnior deram uma outra versão para o fato da jovem ter sumido de repente, pois segundo eles, a jovem havia engravidado do pedreiro e queria dá o golpe da barriga, para cima de Júnior. Este revoltado, olha-a com desprezo, chamando-a de traidora.  Elza desesperada, implorava para o Cidinho desmentir, pois nunca havia tido nenhum caso com ele. Mas, Cidinho tinha em mente salvar o próprio filho da adoção, nada fala, o silêncio foi comprado.
      Em desespero, Elza ataca Júnior para fazê-lo entender a cilada que ela havia caído, os dois homens ao tentar tirar a moça furiosa de cima do jovem acabam todos no chão, em cima da barriga de Elza que se contorce de dor, levanta-se e sai correndo até o jardim, onde cai e perde o seu bebê.  Cumprindo o seu papel em não negar a mentira dos pais de Júnior, Cidinho recebe uma bela recompensa e vai para casa satisfeito, afinal o seu filho estava salvo, para alívio de consciência, repete a célebre frase machadiana -“ Nem todas as crianças vingam”.
       A versão  do escritor Aleilton Fonseca é bem atualizada. Afinal, traz para o bojo da narrativa a corrupção, a compra do silêncio. Com a corrupção vem atrelada a falta de respeito com o outro, a lei da vantagem, a falta de solidariedade, a ganância, a falta de ética, a  calúnia... É uma lista extensa de subtemas que podem ser explorados no reconto em análise. O que leva a sociedade a banalizar a vida do outro? Quais os princípios que norteiam as ações desse tipo? Até que ponto não somos reféns dessa violência?
        Ao olharmos em todas as direções encontramos vários “Cidinhos” que por necessidade não contradizem as versões dos patrões. Muitas “Elzas” que se iludem com as falsas promessas dos namorados, tão artificiais que na primeira ameaça o encanto é desfeito. Jovens, como o Júnior    sendo influenciados pelos amigos, parentes próximos.  E patrões ricos que não se intimidam diante da dor alheia, com um punhado de notas compram o que querem.
         O professor Aleilton Fonseca foi brilhante em seu texto, se o “Pai contra mãe” de Machado é uma história triste, mas “real” num tempo da nossa história,  essa envolvendo o “Outro pai contra mãe” consegue ser mais dura ainda, pois essa “corrupção” infelizmente tem muito a ver com a sociedade atual.  Em nome dos benefícios próprios as pessoas desumanizam, viram “bichos” pelo poder, dinheiro, fama, vantagem pessoal. “Cidinho” é mais um capturado pelo capitalismo selvagem que brutaliza, aniquila e perde o que o ser  humano traz de melhor que é a sensibilidade. Só as pessoas sensíveis são capazes de sentir a dor do outro, solidarizar-se. De certa forma é como se a “lei do farinha pouca meu pirão primeiro” tivesse que prevalecer em todas as ações.  Com isso, “eu” em primeiro lugar e do segundo ao último, o “eu” prevalece também.
       Cidinho é vítima de uma sociedade que muito lhe cobra, desde o alimento, moradia, educação, saúde, lazer, no entanto as condições oferecidas para aquisição dos benefícios cobrados são limitadas. A escolha da profissão “pedreiro” vejo pela capacidade que esses profissionais, com a sua arte, conseguem solidificar as estruturas “trincadas” de uma construção. No texto em análise a metáfora da “rachadura” apareceu na própria “construção familiar” com a gravidez da empregada com o filho dos patrões, clara briga de classes. E o escritor baiano Aleilton Fonseca desnuda todo esse cenário como se dissesse o “outro pai” é tão  insensível quanto o primeiro. Porque você poderá encontrar em qualquer lugar  e período da história pessoas que se vendem e outras tantas dispostas a pagar, cabe a você HOJE  fazer a diferença!

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                        Parabéns, PROFESSOR!
                                 15/10/2013 

                                                                                                   Elisabeth Amorim

*Cartazes produzidos por estudantes de Ensino Médio/2013,  desmontando a literatura em escola pública na Bahia.

Tarsila do Amaral (prosa poética)






Pense numa mulher que fugiu das convenções de uma época... Sou eu. Nasci em 1886, em Capivari – São Paulo e faleci 1973. Estudei nas melhores escolas  do Brasil, Espanha, França...na adolescência permaneci em Colégio de Freiras. Filha e neta de milionários. E o que me fez diferente? Joguei para o alto a tradição familiar e mergulhei na arte... Inovação.
Numa época em a mulher teria que permanecer  em casa, aprendendo a bordar, cozinhar e obedecer ao marido. Comigo aconteceu o oposto. Aos dezesseis anos pintei a minha primeira tela: Sagrado Coração de Jesus, claro, reflexo da minha educação.  Casei-me e em pouco tempo separei. Tive uma filha, minha  Dulce. Algo me inquietava, essa vidinha de ficar em casa, esperando o André, não era para mim.   Voltei de Paris para a fazenda dos meus pais com a minha filha. Decidi ser dona do meu nariz.
Só que a fazenda também me sufocava. Eu queria pintar, usar os pinceis.   Mas precisava da técnica. Uma mulher pintora em pleno século XIX!  Imagine o escândalo! E  o que fiz?  Voltei a Paris para aperfeiçoar o meu talento. No meio em que vivi, a arte vira artificialidade. Conheci Oswald. Meu lindo poeta.  Formamos uma dupla e tanto! Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Em 1922, voltei e fiz parte do grupo da Semana de Arte Moderna. Com as minhas ideias revolucionárias, pois defendia que os nossos artistas deveriam conhecer bem a arte europeia para ressignificá-la. Eu e meu amor, Oswald, botamos para quebrar!
Eu, a mulher das artes e ele, o homem do modernismo! Que pensamentos arrojados! Pena que a minha família sofreu com crise do café. Em 1929... perdeu  quase tudo.  Até  Oswald comecei a perder também...
Ele com as ideias para modificar a literatura. Fazer uma literatura diferente para o povo. Fiz uma obra que era a cara do meu amor.  É isso. Dizem que pintei o sete,  mentira! Pintei foi o Abaporu e dei  para Oswald de Andrade. Ele sorriu muito, pois sabia que era  um recado: “ homem que come”... Tudo a ver com a proposta do Pau-brasil e Antropofagia, nossos movimentos artísticos da época. Ele tinha razão. Temos muito que aprender com os povos canibais, esses antropófagos nos deram lições de vida seletiva. “Comer” só o que prestar, valer a pena. O resto é lixo, é podridão. Eu sou luxo!
De repente, perco meu Oswald para a Pagu.  É... Patrícia Galvão conseguiu ser mais atraente que eu. Atraente só não, feminista, revolucionária, mulher de coragem... Fisgou o meu peixe. Fiquei por baixo? Sim, mas fila anda. E Osório  foi meu novo amor...durou pouco.
Preciso me casar de novo.  Testar meu poder de sedução.  Casarei com um homem bem mais novo. Tenho atributos.  Luis. Isso! Luis só tem 20 anos menos que eu... Casei-me, mas novamente tudo se acabou. A doença é assim, chega, quando menos se espera.
 E agora fico a pensar... fiquei só e paralítica. Perdi minha filha, 1966. Um ano após aquela cirurgia errada... Um simples problema de coluna, jogou-me numa cadeira de rodas até os meus últimos dias. Posso garantir aos meus fãs, nunca pintei o sete! O Ovo, eu pintei! Não só o Ovo, mas Carnaval em Madureira, Sol poente, Lua, Abaporu,  A Negra, Operários... Mas os conservadores me detonaram. Que culpa eu tenho se as mulheres do século XIX se acorrentaram? Cada qual que cuide da própria vida. Foi o que fiz, vivi a minha vida.
 Eu acreditei no sonho de ser feliz.  Para realizá-lo faria tudo de novo.  E a minha arte mostra o quanto eu fui feliz, realizada, plena. Fui uma mulher que assumi a minha feminilidade sem me deixar abater com as críticas. Trouxe a Europa para a arte brasileira, respeitando a nossa cultura, a nossa gente. Aliás, fiz mais, levei a arte do Brasil para a Europa. Se “meus amores” sumiram quando perdi os movimentos das pernas, eles não imaginaram que o talento da grande mulher vai além delas...
                                                  

                                                              Elisabeth Amorim  
             Escritora baiana/ Professora de Literatura/ Mestra em Crítica Cultural


            * Fotos da exposição ocorrida no Colégio Estadual Lauro Farani, Iaçu - BA

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