quinta-feira, 16 de julho de 2015

SERENA (conto)

*

Aquela mulher tinha uma coisa que não combinava.  Seu nome sugeria algo que ela não era.  Ela era uma mulher totalmente estabanada. Trocava nomes dos colegas, modelos de carros, endereços… Até as cores  poderiam  ser substituídas, afinal para Serena não valia a pena guardar na memória coisas sem grandes importâncias.  Onde ficariam as coisas valiosas que  deveriam ser preservadas?
Aos trinta anos de idade  estava de bem com a vida. Solteira, independente financeiramente, férias sempre planejadas… Quando organizava ir para o Rio de Janeiro, às vésperas mudava de ideia e ia para Amazônia . Naquele ano não teria alteração de rota,  iria finalmente conhecer as  Cataratas do Iguaçu. E não é que uma semana antes Serena mudou todo o roteiro?
Dessa vez conheceria o Poço Encantado e uma série de cachoeiras na Chapada Diamantina, na Bahia. Quem tentasse entender Serena, não conseguia. Pois nem ela mesma tinha uma explicação  para os seus atos desastrosos.  No escritório no qual  trabalhava ela conseguia saber onde guardava os documentos, bastava  um pouquinho de paciência…
_ Calma, chefe!  Levo agora para o senhor assinar… Estava aqui agora em cima da mesa, na pasta azul, já estou indo!
E assim que desliga o interfone  corre para as  vinte e cinco pastas azuis a procura do tal documento importante. Isso após se lembrar que “esse”  foi colocado na pasta com etiqueta “urgente”. Boa lembrança!   Iria reduzir a procura pois apenas nove pastas tinham a mesma etiqueta… Essa era a Serena. Falar que aquela mulher vivia pagando mico, era pouco para o desequilíbrio que era a sua vida.  “Gorila” o nome correto para os “fora” dados.
E quando entrou no carro errado e foi  dando bronca no “amigo” por ter chegado mais cedo? Já invadiu o banheiro masculino por displicência e vermelha balbucia um “ desculpa”. Serena  ao flagrar o “namorado” de costas sentando com uma garota no Shopping,  agarra-o por trás e tasca um beijo no pescoço… Diante de uma moça furiosa que berra:
_ Amarildo, o que isso significa?! Quem é essa mulher?!
     _Desculpe-me! Pensei que era o meu…
Serena é um verdadeiro furação em forma de mulher.
Pensava que  jamais se casaria pois nenhum homem teria paciência com aquela “bomba relógio” ambulante. Viver com Serena era ter a certeza de que o tédio não existiria. Pois a jovem nem bem saía de uma encrenca, entrava em outra  pior. Muitos namorados depois de algum tempinho nem  o celular atendiam. E Serena continuava serena.
Na semana de ir para Chapada Diamantina o atual namorado  a dispensou, dizendo que aquele programa não era para ele, pois o combinado era  o passeio nas Cataratas do Iguaçu .  A amizade continuava, mas “bye-bye.”
Aquilo não incomodou Serena, assim teria uma cama gigantesca e um banheiro sem precisar dividi-los com ninguém. Claro, tinha o lado negativo, quem iria fazer um cafuné? Quem  esquentaria as suas noites? Logo nesta viagem que Serena havia resolvido engravidar ou tentar, pois aos trinta anos não queria deixar para depois .
Serena não imaginava que a Chapada Diamantina tem as suas surpresas, além da beleza natural.   Na mesma noite em que se hospeda  num belo hotel, percebe que chama a atenção, afinal era a única mulher desacompanhada naquele local.  Escolhe um cantinho para apreciar o lugar e observar os frequentadores. Um senhor chama-lhe a atenção. Mesmo acompanhado de  uma bela mulher  mais jovem, percebia que ele não estava nada contente com aquela viagem . Passa a imaginar qual a relação daquele casal,  o porquê do descontentamento…  E  ao perceber que era observado, o senhor retribui o olhar  com um sorriso displicente e convidativo,  constrangida ao ser notada, baixa as vistas e vasculha distraidamente a carteira…
Serena se surpreende ao receber do garçom um bilhetinho com um número de telefone do quarto e a pergunta: “Não gosta de dinheiro?”  Aquilo a deixou  mais envergonhada. Estava sendo confundida com uma mulher de programa. Nunca fora tímida, mas aquela dedução do senhor lhe desconcertou.  Provavelmente era aquele seu jeito de mulher de bem com a vida, morena, alta, agradável, uma mulher feliz e  satisfeita com as conquistas. E isso lhe dava um ar de prazer, visto do outro lado como “ disponível”.
Naquele momento resolveu dar uma lição naquele senhor, provavelmente um estrangeiro, pelo  vermelhão da pele branca, devido a exposição solar. Guarda o endereço, sorri e concorda com um gesto. Em seguida vai para o próprio quarto. Ele que ficaria a noite toda a sua espera… Toma banho, sem se preocupar em se vestir deita na penumbra.,.  algumas taças de vinho,  uma sonolência o corpo não resiste, adormece.  Não percebe quando o senhor entrou em seu quarto, uma vez que ela não apareceu, mas concordou que ele a procurasse. O garçom era a testemunha daquele gesto e com uma boa gorjeta,  acesso livre.
Ele tentou lhe falar algo sobre o dinheiro, mas ela não deu nenhuma chance de prossegui-lo, entre os sonhos e realidade namoram a noite toda. Serena não se policia, entrega-se completamente.  O pai do seu filho tinha a cara daquele estrangeiro que ela deixara com cara de bobo à sua espera. Qual o nome daquele homem?  Incrível! O sonho não terminava… Eles  não se falavam, sussurravam palavras desconexas. Incansáveis? Não! Satisfeitos permanecem agarrados…
Serena acorda quase onze horas da manhã, surpresa pois não era de costume dormir tanto. Lençóis pelo chão,  almofadas espalhadas, sua cama numa total desordem. Volta a pensar no sonho que agitou a sua noite, dali em diante  diminuiria o vinho. De repente, algo lhe chama a atenção em cima da cômoda.
Havia junto com o número que recebera do garçom, uma nota de cem reais  com um bilhetinho:
“ _ Gostei da recepção. Ah, esse dinheiro é seu …Replay?!”
Furiosa, Serena desperta de uma vez.  Não quer saber  o conteúdo do bilhete, toma um banho  rápido, pega o dinheiro e o bilhete e corre para o quarto anotado.  Com a certeza de que  ele estava a sua espera, ela  invade o local, sem bater na porta,  aos gritos:
     _ Quem o senhor pensa que é para me tratar desse jeito?
      O casal que estava namorando se assusta com a presença daquela mulher, olha para aquele furação sem nada entender…
_ Oh, Desculpe! Desculpe! __ Mesmo envergonhada, reconhece a jovem que acompanhara o senhor na noite anterior,  e dispara:
_ Enquanto você fica traindo seu marido com esse homem mais novo, ele dormiu comigo essa noite! Comigo, SERENA! Entendeu? E dê para ele esse dinheiro, mande ele comprar outra pois não estou à venda!
E some, jogando em cima da cama uma nota amassada de cem reais, enquanto os jovens trocam olhares e caem na risada.
_Agora entendi qual o furação  atingiu meu pai! É a mesma que te falei do restaurante que deixou cair cem reais da carteira …
_Ainda bem que ele só volta à noite… Essa  não é nada serena!
Enquanto num apartamento bem próximo, encontrava-se uma mulher furiosa, arrumando as malas e saindo às pressas daquele hotel. Ao chegar na recepção …
_ Idiota! Além de estragar o meu passeio,  fez eu perder cem reais! Mas voltar para procurar, eu não volto!  Fecha a conta e  voa para Foz do Iguaçu, enquanto no chão jaz um bilhetinho amassado "…que você deixou cair ontem.”

                                                                                                  Elisabeth Amorim

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Disponível desde 2013  em http://www.protexto.com.br/texto.php?cod_texto=3127
https://toquepoetico.wordpress.com/2014/06/22/serena-conto/
          

*tela de Ilka Peixoto, Nu.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Pai e filha ( mensagem)



PAI,
É no silêncio das horas que nos encontramos
Repouso em Ti
Como um barquinho de papel que as ondas decidem a direção
Para onde irá aquele frágil barquinho?
Sim, somos como esse barquinho
Às vezes somos jogados de uma direção para outra
E enfrentamos  as ondas, tempestades em alto mar
 Como?
Se somos frágeis  como um barquinho...
 Se não dominamos o nosso medo...
Se  achamos que a nossa pequenez  diminui a fé...
Conseguimos  sim, Pai.
Vencemos porque temos um propósito
Acreditamos no poder da fé.
Nada conseguimos  sem a  Tua vontade
E é a Ti  que levamos as nossas petições.
E quando entregamos a Ti a direção
O barquinho não vira,  pode balançar... pender para um lado, mas
 Atravessa ondas e tempestades
Depois volta a navegar por águas calmas.
Pai, tu estás sempre no controle do nosso barquinho.
Até quando?
Sempre. A direção é dada por Ti,
Para o riso ou para a dor. 
A última, primeira, aliás,  a única Palavra que prevalece é Tua.
 Só escolhidos  sabem do que estou falando.
Ser escolhido é ter de certa forma a marca, um sinal da promessa.
 O vendaval invade o espaço, mas não consegue derrubar nada.
Porque quando o Pai está no centro das ações, há sustentação, amparo...
E apenas as pessoas que já alcançaram bênçãos confirmam essa sensação de bem estar.  E são muitas, muitas que recebem bênçãos todos os dias...
A vida é uma bênção quando empregada para as coisas boas, positivas.
Essa mensagem vai além da religião, mas uma mensagem de amor, gratidão e  respeito às ações de  Deus para conosco.
Estamos vivos! Tem presente melhor? Quantas pessoas se pudessem estar no nosso meio  gostariam de ter mais essa chance?
É privilégio  desfrutar o dia, a hora, cada minuto a mais que temos de vida.
Porque o nosso presente é agora, hoje.
Amanhã, um futuro, apenas um futuro.
Pelo  hoje, agradeço, Pai!
E que  amanhã muitas bênçãos serão reservadas para todos nós,
Conforme a Tua vontade de Pai.
          Sua filha.


E. Amorim

sábado, 11 de julho de 2015

Liberdade (poesia)

Elisabeth Amorim

*

Dom divino e precioso
É o poder de ir e vir
Liberdade , Oh, liberdade!
Algo que me faz sorrir.


O respeito a diversidade.
Seja branco ou  preto como carvão
Liberdade é  a chama acesa
Que aquece  o coração.

Liberdade para  ser lida
Sem  o passaporte  de escritora
Espalhar  para o mundo
Rabiscos de uma sonhadora.

Liberdade para voar
Como uma tocha universal
Com apenas um propósito
Divulgar a paz mundial.

Desejos em  versos tortos
Dessa   literatura aprendiz
Que  a LIBERDADE  seja  companheira

De uma trajetória feliz.



* Estátua da Liberdade, Nova York.


publicada também em  http://toquemaisquepoetico.blogspot.com.br/2015/07/liberdade-poesia.html 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Devolva-me (soneto)

Elisabeth Amorim

*


Quão ingênua fui
Aninhei  em teus braços
Desfiz dos meus laços
Sonhos sonhados sonhei.

Puxaste o tapete
Jogando-me no chão
Negaste a tua mão
Chorei, sorri, levantei.

Agora quero vingança
E os meus abraços?
Desfeita  a  aliança.

Crime e vil castigo.
Cobro com juros agora
Abraços e beijos sem demora.


*imagem da web


domingo, 28 de junho de 2015

Destino (poesia)


Qual o motivo da dor?
Ela vem de mansinho
Invadindo cada cantinho
Como se tivesse um sabor.


De uma alegria perdida...
Uma ferida aberta
Uma doença que não liberta
Uma chama sem vida.


Hora de sair um pouquinho
Encontrar com o  destino
E nos braços do Deus Menino
Receber  o agradável  carinho.


terça-feira, 23 de junho de 2015

O Espelho (mensagem/ reflexão)


*

        Definitivamente todas as repartições públicas deveriam colocar um espelho na entrada. Onde  todos e todas  pudessem  apreciar  a si e aos outros.  Já pensou se cada um de nós parássemos  diante de um espelho por um minuto a mais diariamente para enxergar não apenas o reflexo  visível,  mas o que está por trás da imagem?
        O espelho é um objeto mágico. Ele consegue fazer com que paremos  para tentar arrancar aquele único fio de cabelo branco praticamente oculto,  invisível aos olhos alheios,  não o suficiente escondido para ele.  As rugas que disfarçamos com a maquiagem.  As gorduras localizadas? Ele  escancara que a nossa dieta não está tão eficaz quanto pensávamos.
        Imagine cada aluno ou professor diante de um espelho,  momento ímpar,  ele e o espelho.  Sem a preocupação do facebook,  pois essa intimidade não deverá ser propagada.  É um mergulho em si  mesmo,  um despir-se de  “verdades” e de  certezas, dando chance para as incertezas,  os questionamentos.  Pois são as dúvidas que nos movem e não as certezas, pois   as nossas “verdades” nos acomodam,  tornando-nos prisioneiros do  casulo e não alçamos voo para as novas descobertas... 
       A educação olha para o espelho e o que  percebe?   A saúde resolve olhar também...  E a segurança pública frente a frente com o espelho, desarmem-se! Gostam da imagem refletida?  Conseguem parar um minuto diário para   o além do reflexo?  E você diante do espelho?  Já tentou fazer o exercício de buscar além do refletido? Se a imagem continuar do mesmo jeito não culpe  as estrelas, mas o seu espelho.
       Porque o  espelho  consegue ir além da  maquiagem e   revelar   o  reverso.  O lado fantástico  é a  imagem por outro ângulo, pela visão dele e não  nossa.  Por isso que há tantas pessoas que não gostam do que veem  e evitam os espelhos.  Diante dele é possível enxergar o “atrás”,  as sombras que tanto deformam a imagem refletida.  O bom é  olhar para o espelho  da  alma, quando senti-lo embaçado por conta de algo negativo praticado  é tentar corrigi-lo para sentir-se melhor, não para agradar o mundo,  nem Cristo conseguiu , mas para agradar a si mesmo.     

       É no espelho que nos encontramos e nos perdemos. Enxergamos além do apresentado,  registrado. Só o espelho é capaz de mostrar a face oculta,  aquela que escondemos a sete chaves, mas como ele é mágico  encontra  uma das chaves e abre as comportas...
                                   

                                     Elisabeth Amorim


*imagem da web

domingo, 21 de junho de 2015

A zebra curiosa (infantil)


Era um dia perfeito
Mas aquela zebra  bonita
Apresentava um terrível defeito
A sua curiosidade infinita
Aquele mau costume não tinha jeito
Que coisa esquisita!


Todo animal que chegava
A zebra queria saber
O que fez e onde morava?
Como aprendeu sobreviver?
A zebrinha interrogava que interrogava
Dela os animais passaram a correr.



Enquanto  a  curiosa zebrinha
Olhava a vida alheia
Não se preocupava com a sua vidinha
Que passava sem pareia
Questionava até o patinho
Que nadava na hora da ceia.



Os animais em protesto
Resolveram interrogá-la
Queriam  através de manifesto
Para a zebrinha se explicar
O motivo de cada gesto,
Cor, forma, lista que ela poderia usar.


Era um tal de porquês...
Pegando no seu pé
Que lista preta! Por quê?
Responda agora se quiser...
E esta lista branca, quero saber
Por que? Zebra tem chulé?



Onde a zebrinha ia
Logo aparecia um animal
Perguntava e  sorria
Fazia a coitada passar mal.
_Como você sobreviveria
Se não fosse tão igual?


Sufocada a zebrinha correu.
Os animais confabularam em reunião...
De repente a girafa apareceu
Para resolver a situação:
_Deixe que eu descubro onde ela se escondeu.
E darei um fim  nessa questão!



A  girafa experiente
Observadora e de bom coração
_Venha zebra! Mostre para a gente
Que aprendeu a lição.
Antes, porém suba aqui na frente!
Que irá saber para que serve meu pescoção!


Surge a zebra envergonhada
Daquela situação vexatória
No pescoço da girafa fica agarrada.
 Algo que entrou para a história.
Pois a girafa deu uma  balançada.
E o chão serviu-lhe de palmatória.



                                                  
                    Elisabeth Amorim
                           (escritora que desmonta a literatura, espalhado-a pelo mundo)

Literatura de mainha 6 - Afirmação de identidades

 Mais um vídeo para você prestigiar.  Textos básicos; O sapo - Rubem Alves O sapo que não virou príncipe - Elisabeth Amorim